terça-feira, 6 de outubro de 2009

Relato direto de Padang - Indonésia (by Kamarão)

Amigos 

passei o olho aqui na quantidade absurda de emails que recebi e tentarei responder rapido para todos de uma só vez.

Finalmete estou com tempo de sobra para escrever este longo email.... espero não me estender muito.

estou no momento no aeroporto de Jakarta, esperando meu voo para voltar ao Brasil.

Chego ai dia 8 de noite.

Passei os ultimos dias ancorado no porto de Padang, boiando dentro do Koat, barco no qual fiz uma viagem pelas ilhas Mentawai.

Por causa deste evento imprevisivel, voltamos tres dias antes do combinado.

O terremoto que atingiu Padang, na ilha de Sumatra foi devastador e destruiu boa parte da cidade.

Sua magnitude foi de 7.6 graus, muito mais forte do que o de Bali, semanas atrás, que assustou muita gente mas não danificou quase nada, com 5.8 graus. Não é sempre que se pega dois terremotos numa mesma viagem... não quero passar por isso nunca mais. Em Bali o susto foi grande, mas somente isso. Em Padang a coisa foi séria, ainda bem que estavamos longe de lá.

Eu estava a mais de 150km ao sul, na ilha de Pagai Utara, uma das Mentawai.

Tinhamos acabado de sair de Macarronis e estavamos em alto mar. Sentimos um barulho estranhissimo no barco, que fez os mecanicos ficarem preocupados que tivesse quebrado alguma coisa no motor. Eles desceram às maquinas, viram que estava tudo certo e continuamos a viagem...

Na manhã seguinte recebemos a noticia que tinha havido o terremoto. O risco de tsunami ainda era real e estavamos incomunicaveis, a nao ser pelo radio com alguns outros barcos. Para nós que estavamos em alto-mar nao tinha problema, mas não tinha como avisar a ninguem no Brasil que estava tudo ok com o StarKoat.

De noite fomos a uma ilha perto que teria sinal de telefone, para que a tripulação pudesse falar com suas familias em terra.

A informação era pouca e a apreensão foi crescendo, pois eles não conseguiam falar com ninguém. A decisão de interromper a viagem e retornar a Padang foi escolhida entre a equipe e nós, clientes do barco.

Ainda demoramos dois dias para chegar a Padang e quando chegamos a cena vista do barco foi impressionante.

Parecia que a cidade havia sido bombardeada. De longe viamos predios rachados e um ou outro que ainda estavam de pé, mas completamente inclinados, prestes a desabar. Chegamos em Padang tres dias depois do terremoto e o risco de outro abalo era real, assim como o de um tsunami. Por isso, ficamos ancorados em aguas mais fundas, a quase um kilometro da praia, enquanto a tripulação desembarcou e foi na lanchinha do Koat para terra para procurarem seus familiares. O sinal de celular havia voltado e finalmete pudemos falar com o pessoal no Brasil, acalmando muita gente que não tinha ideia do que tinha acontecido conosco.

Entramos no canal do porto e chegando perto, ainda da agua, fomos vendo que a cidade estava voltando a funcionar, com motos e carros andando normalmente nas ruas, mas o pessoal que conhecia Padang nos disse que os edificios mais altos, normalmente vistos de alto-mar, tinham sumido... A situação para dentro das ruas estava caotica... Era dia ainda, e não tinhamos noção dos danos, já que continuamos dentro do barco, com eletricidade, agua, comida e conforto.

De noite caiu a ficha. A cidade estava em blecaute, e nos falaram que estava faltando tudo.

Os integrantes da tripulação foram retornando ao porto e voltaram ao barco para contar o que tinham visto.

Todos falavam de amigos desaparecidos, mas apenas um tripulantes perdeu familiar próximo; um outro encontro sua filha pequena num hospital (que não foi destruido). A menina caiu dos braços da mãe, que estava num dos shopping centers da cidade e foi pisoteada pelas pessoas desesperadas para escapar para a rua. Incrivel como essa criança sobreviveu...

Na manha seguinte a equipe do barco agilizou mudança das passagens aereas dos clientes, para que pudessemos sair de Padang o mais rapido possivel. Fomos informados que o aeroporto havia voltado a funcionar mas que estava lotado de gente. Chegava muitos aviões na cidade, com familiares que procuravam desaparecidos e ajuda humanitaria em aviõs de carga, que podiam ser vistos toda hora no céu.... a situação era muito preocupante, mas de alguma forma a população parecia impressionantemente calma, como se isso fizesse parte da vida normal deles. A maioria dos clientes consegui voos para o dia seguinte, ms eu e mais tres outros, somente para dois dias depois.

Ficamos ancorados no porto, dentro do Koat, por tres noites.

Tentavamos levar o tempo de forma tranquila, mas pela minha cabeça só passava a idéia de sair logo de lá.

Não dormia direito, pensando na possibilidade de outro terremoto ou ainda que um tsunami entrasse varrendo o canal do porto de Padang.... os tripulantes indonesianos não estavam nem aí, e até riam um pouco com nossa preocupação!.... cada um com sua vida.... 

Na véspera do meu vôo finalmente sai do barco e andei pelos arredores do porto para tirar umas fotos. Muitas rachaduras nos prédios e asfalto descolado da calçada. Vi algumas tendas de distribuição de recursos para a população, mas as pessoas não demonstravam nenhuma preocupação e estavm seguindo com a vida normal. As pequenas lojas abertas e o transito fluia. O posto de gasolina voltando a funcionar, com preços inflacionados dos combustiveis que estavam acabando na cidade... Recebi muitos sorrisos, pois nossa aparencia ocidental chama muita atenção por lá, completamente alienigena.

Voltei ao barco e mais tarde eu, outro brasileiro e um portugues (que tambem nao conseguiram antecipar os voos) saimos de carro com um dos socios do Koat, para dar uma volta pelas ruas e ver o real estrago que o abalo havia feito. O queixo caiu. Filmamos e fotografamos cenas que pareciam saidas de um noticiario da CNN...  Apesar de tudo, a população acompanhava os resgates e equipes de salvamento como se fosse uma atração nas ruas... Barraquinhas que vendiam de tudo, refrigerantes, frutas etc... Pouco isolamento e muita gente perto dos escombros... uma zona.

Algumas areas da cidade estava com barreiras, com varias ruas fechadas.

O principal hotel da cidade, que tinha mais de cinco pavimentos, havia se transformado numa panqueca de escombros de dois andares.

Tinham mais de 200 pessoas dentro dele no momento do terremoto.

O outro hotel grande, o Bulminang, estava ainda de pé, mas bastante danificado.

Foi neste hotel que nós, clientes do Star Koat, nos reunimos antes de embarcarmos, no dia 23 de setembro. As pessoas foram chegando de Bali, do Brasil e se reunindo no lobby do hotel... Fiquei a tarde toda tomando Bintang e conhecendo os outros participantes daquela que seria uma viagem dos sonhos pelas melhores ondas do planeta... Saimos de la ao anoitecer e fomos para o porto. Antes de sair, fiz uma reserva no hotel, para poder descansar depois que voltasse de mais de uma semana emabalado pelo balanço do barco. Ironicamente, pedi um quarto nos andares mais altos, para poder ter uma boa vista da cidade.... Imagina a situação se esse terremoto tivesse acontecido alguns dias depois, comigo e outros lá dentro do hotel....

O cheiro de podridão era menos forte que o cheiro do desinfetante que as autoridades espalharam pelas ruas e construções desabadas. Era muito estranho. Muita gente nas ruas, muitas escavadeiras, muitos escombros. As casas mais altas estavam ou rachadas ou reduzidas a um andar. Alguns carros amassados sob prédios inteiros.... Incrivel que varias casas de madeira, mais humildes, estavam inabaladas, de pé, sem nada quebrado. Os piores danos foram nas construções mais altas. Lojas de carro estavam destruidas, pousadas conhecidas por receberem surfistas do mundo inteiro completamente destruidas...

Cena de guerra. Inesquecivel.

Ontem de manhã acordei já com tudo pronto e me despedi da tripulação. Os indonesianos são muito tranquilos e estavam sorridentes e sempre amigaveis como durante a expedição pelas ondas. 

Foi um alivio sair de lá e estava apreensivo até o avião decolar, ontem ao meio dia.

O aeroporto não estava quase danificado, mas não tinha agua ainda.

Muita gente indo embora, mas não estava mais caótico como nos dias seguintes ao terremoto.

Voltei com o Ricardo Fabrinni, figuraça que estava no barco conosco e foi anunciado como desaparecido na Sumatra pelo Jornal Nacional... 

Chegamos a Jakarta e ao esperamos a bagagem uma reporter da Record ouviu a gente falando em portugues e se apresentou. Ela estava em Padang cobrindo a catastrofe e pediu para nos entrevistar... Deve ter saido ai no Jornal da Recor ontem de noite! Parece que esta no site www.r7.com , procurem lá.

mas é isso.

tudo bem comigo e fica a historia para contar.

saudações crustaceas

Claudio Camarão

~ k m r ~

5 comentários:

smurf (curitiba) disse...

Camara mandou o mail ontem. Fiquei apavorado.
Quase que o crustáceo se fodeu!
Vida longa ao nosso amigo CAMARÃO!

Fred Schmidt disse...

É Smurf... não é brincadeira não! Nós aqui no Rio estávamos apreensivos sem ter notícias do Camarão! Ele ligou para o Rodrigo lá de Jakarta faz 2 dias e ontem recebemos este mesmo e-mail. Mas antes disto, a última notícia que ele tinha enviado foi no dia 27/09, quando o barco parou no Macarronis Surf Resort. A família dele e a namorada estavam apavorados sem saber dele após as catástrofes! Mas graças a Deus o Camarão está bem e voltando para o Rio depois de uma longa odisséia estressante! Tá difícil pegar ondas por este mundo a fora.... no México topamos com a gripe suína, na Indonésia são os terremotos e tsunamis que assustam a todos! Pra onde vai o mundo? Pelo menos o Betinho se divertiu bastante na Costa Rica e não teve qualquer problema em sua estadia.
Benvindo de volta a terrinha KMR!!!

César Vaghetti (Salada) disse...

Caralho meu chapa que história punk... so vendo....

::camarao:: disse...

Voltei ontem ao Rio compadres!!

fotos serao mostradas em breve.

abrassssssssssskmr

smurf (curitiba) disse...

WELCOME MR. KAMARA....